terça-feira, 29 de setembro de 2009

Fiz chapinha para varrer a calçada

Hoje acordei pensando como os períodos de transição se tornam mais difíceis quando temos de vencer a nós mesmos... pode parecer estranho (ou não), mas mesmo optando por pedir demissão da Vale todos os dias pela manhã me pergunto "eu fiz a escolha certa?". De todos os ícones deste período de migrar para o lado dos "donos do próprio negócio", estou ciente que "casa", ficar em casa, é um motivos que me levam a essa pergunta e também um dos símbolos mais desafiadores da minha vida - pelo menos neste momento.

Vou explicar melhor tudo isso, mas acho que são necessários três adendos antes de seguir com o texto.

1) Desde os 16 anos vivo/trabalho no sistema "sair de casa às 06h30 e voltar para casa às 22h;
2) Há 35 dias eu morava em uma "apertanet";
3) A kitnet foi arrombada e me mudei para uma casa com quartos, cozinha, varanda... e calçada!

Dá pra entender que as coisas vieram todas juntas? Decidi sair da Vale, montar meu negócio, fui assaltada e ganhei uma calçada para limpar! Quanta mudança...

O fato é que tudo começou quando um dia desses resolvi que teria um dia de "dona de casa". Coloquei o chinelo mais confortável, prendi o cabelo, peguei vassoura, saco de lixo e saí rompendo o mundo rumo a combater todas as folhas, galhos e sujeiras que encontrasse na minha frente.

Estava me sentindo a própria justiceira da limpeza quando repentinamente ouço uma voz "posso pegar aquele cabo de vassoura que você jogou fora para mim?" Céus... e porque eu diria não? Afinal, nem era meu o bendito cabo... quando me mudei para a casa ele já estava lá, só tive o trabalho de jogar fora!

Bem, respondi que sim e voltei ao meu objetivo. A cada minuto a calçada parecia tão limpa... estava começando a me sentir orgulhosa daquilo tudo. Até que novamente fui interrompida "amiga, posso lhe fazer uma pergunta? É só para eu saber se estão sendo justos comigo aqui, sabe? Quanto você ganha pra limpar a casa aí?"

Como??????? Peraí "A-MI-GA", eu entendi bem sua pergunta? Calma, desta forma foi somente como pensei. Nesse momento respirei fundo, abri um sorriso amarelo e respondi "na verdade eu sou a dona da casa"... e quando parecia que não ficaria pior, o diálogo foi encerrado com uma "ai meu Deus, seu meus patrão (sic) sabem que você é a dona de casa (como??? "de casa"??? Nãaaaaaaaaaao, eu sou a dona DA casa... pra mim tem diferença) eu tô ferrada. Depois que você limpou sua trelha eles me mandaram limpar a daqui... imagina o que não vão me mandar fazer..."

A minha ficha caiu... eu terminei de limpar a calçada, entrei em casa e desisti de seguir com a operação limpeza. A semiótica de ficar em casa me atacou... porque ficar em casa sempre me pareceu ser "dona de casa" e tenho que admitir que luto diariamente para que isso não aconteça.

Chegou um momento em que parecia cena de novela mexicana... me olhei no espelho, passei a mão na testa, prendi novamente o cabelo e chorei... pode até parecer dramático demais e cômico ao mesmo tempo... mas pra mim isso tudo significa superar preconceitos, mudar crenças e aceitar o desafio da transição.

Esse episódio aconteceu faz 15 dias. Não deixei de fazer nada do que me propus no que tange a alcançar e realizar meus objetivos profissionais. O site da empresa está nascendo, os meus produtos estão sendo alinhadinhos, tenho prospectado clientes, estou estudando muito e desenvolvendo os materiais didáticos do futuro curso de formação em coaching e por aí vai...

Mas estou lutando contra o meu preconceito de que limpar a casa "é menos". Eu me sinto envergonhada sim... valorizo demais as pessoas que fazem isso para se sustentar ou para cuidar da família... dou o maior valor à Vanessa que limpa minha casa toda semana. Sei também que estou lutando contra o medo de fracassar e me tornar dona de casa... sei que não vai acontecer... mas medos são medos...

O que importa é que ultimamente meus aprendizados tem sido muitos. Ficar mais em casa tem me feito bem, estou trabalhando a ansiedade, pensando em equilibrio, aprendendo a me disciplinar e descobrindo que cuidar da casa pode ser uma boa maneira de fazer exercícios físicos e de reflexão.

Mas também não serei hipócrita! Não vou aguentar mais de 4 meses isso... e sim, hoje eu dei graças a Deus porque estou de chapinha quando fui varrer a calçada às 07h da manhã...será que tenho mais cara de dona da casa agora?

3 comentários:

** disse...

Maninha, todos temos nossos próprios medos e como você mesma afirmou: "Medos são medos."
Todo ato de coragem parece loucura aos olhos alheios, quando vc decidiu sair da Vale eu fiquei imaginando quais os motivos que levariam uma pessoa a abandonar uma posição que muitos gostariam de ter. Cheguei a conclusão que vc queria mais e não apenas mais...melhor! Vc queria algo melhor, e nessa vida Jojoba só os aldazes conseguem o melhor. Sinto o maior orgulho por ser tua irmã, seja como RP de uma multinacional, dona do seu próprio negócio ou a DONA DA CASA. Maninha, aprenda a sentir orgulho de cada momento em seu lar...moro em uma kitnet e sinto-me feliz de saber que ela tem a minha cara o meu toque pesoal (se bem que eu adoraria ter alguém com quem dividir...kkkkkkkkk...UMA alguém...kkkkkkk) e mesmo entre a correria do quartel, faculdade, motoclube, etc ali é o meu lar. Nossa sociedade é patriarcal e machista (infelizmente) sei que as pessoas nào sabem valorizar os trabalhos ditos domésticos, mas fale de seu lar e dos trabalhos pertinentes a ele com sabor de uma vitória. se há algo que nào te agrada fazer dentro do lá contrate uma ajudadora...que mal há nisso?...contudo naquilo que você se propuser a fazer seja sempre dedicada e mostre as pessoas que vc pode ser tào eficiente no seu PC quanto na sua vassoura. Desde que não seja como bruxa...kkkkkk...Te amo de montão. BRITTS

Anônimo disse...

Simpatia, muito bom vc estar aqui com o seu blog. Gostei muito desse seu texto e acredito q são desde os pequenos desafios, como varrer uma calçada, até entender as cabeças das pessoas, os que nos motiva a estar nessa profissão (comunicação). Mas, é isso ai, parabéns por essa nova fase da sua vida (c sabe q é de coração) e que venham muitas calçadas para limpar (afinal nem calçada tinha antes), ehehehehehehe. Cabral

Anônimo disse...

Joyce!

Esse seu texto é simplesmente, VOCE!!! ou seja SURPREENDENTE!! Muito inteligente e sutil!! revela toda sua leveza e sabedoria em lidar com as mudanças e adversidades que experienciamos diariamente. Seu excelente humor, mesmo nas horas de "chapinha ou sem chapinha" são sua marca. Sei que voce é capaz de sorrir, mesmo quando a situação seria para "amargar". Com todo respeito e carinho, voce terá sempre a minha admiração. Um forte e sincero abraço, da amiga Eliane Arruda.

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